Simone Weil

Simone Weil surpreendeu meio mundo quando soube-se que havia se convertido ao cristianismo.

Vivo em uma geração sem heróis. Sinto falta de homens e mulheres que inspirem minha alma, que me desafiem a sair de minha zona de conforto. Lendo o "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes" de André Comte-Sponville (publicado pela Martins Fontes, São Paulo) estranhei que ele, sendo ateu, citasse tantas vezes o nome de Simone Weil como referência de uma cristã verdadeira. Pesquisei e familiarizei-me com esta parisiense, nascida em 3 de fevereiro de 1909. Hoje, encantado com sua história e coerência de vida e fé, desejo torná-la mais conhecida de minha geração. Simone Weil foi uma menina prodígio em literatura e ciência. Aos seis anos de idade sabia citar Racine de memória. Mesmo com todas as perturbações da I Guerra Mundial, obteve o seu baccalaureat es lettres com distinção, em Junho de 1924, aos quinze anos de idade. Em sua prova oral, o presidente da banca examinadora, especialista em literatura medieval, deu-lhe nota 19 em 20 possíveis.

Simone Weil estudou na Ecole Normale Supérieure formando-se como professora de filosofia em 1931. Em 1933, decidiu abandonar o magistério para experimentar como vivia plenamente o operário. Por dois anos trabalhou na fábrica da Renault, sem nunca revelar algo que a tornasse superior aos seus parceiros. Em 1936, viajou para a Espanha porque desejava ajudar os republicanos que sofriam na guerra civil. Sofreu os horrores da guerra. Adoeceu e forçada, voltou para a França. Debilitada, não conseguia mais trabalhar lecionando, quando eclodiu a II Guerra Mundial.

Em junho de 1941, conheceu o Padre Ferrin, do Convento Dominicano de Marseilles, preso dois anos depois pela Gestapo. Nesse tempo, Simone Weil abriu-se para o conhecimento de Deus. Correspondeu-se longamente com o Padre Ferrin. Depois da invasão da França pelos nazistas, voluntariou-se para trabalhar no serviço do Governo Provisório da Resistência. Mas, mesmo no exílio, sua identificação com os que sofriam sob o regime de Hitler foi tão grande que, adoecida e fraca, disciplinou-se a comer uma ração semelhante a que os seus patriotas eram submetidos na região ocupada pelos alemães.

Assim, sua saúde deteriorou-se e Simone Weil morreu solidária aos seus irmãos franceses em 29 de agosto de 1943, aos 34 anos de idade.

Sua vida inspirava vários ateus e anarquistas europeus. A Academia lhe considerava uma mulher de posicionamentos sólidos e sempre à margem das instituições religiosas, políticas ou intelectuais. Mas, Simone Weil surpreendeu meio mundo quando soube-se que havia se convertido ao cristianismo.

Contudo, seu cristianismo também não se conformava aos moldes institucionais. Simone dizia que, em respeito aos ateus, aos frios e aos impotentes diante da fé, ela não se batizaria na igreja católica, pois via-se "plantada na interseção do cristianismo e de tudo o que não é cristianismo".

Àqueles que se consideravam salvos por saberem recitar o credo, ela insistia numa verdade desconfortável: "a incredulidade de alguns ateus está mais próxima do amor de Deus do que a fé fácil daqueles que, sem nunca tê-lo experimentado, penduram uma placa com o seu nome como se fosse uma fantasia infantil ou uma projeção do eu’". Simone Weil, assim como Kierkegaard, pregava o paradoxo de que é mais fácil um não cristão se tornar um cristão, do que um "cristão" se converter".

Para aqueles que só buscam na religião conforto e paz de mente, ela lembrava que "Cristo não prometeu a paz, mas a espada e que as suas últimas palavras foram o grito de absoluto desespero, o ‘Eli, Eli, lama sabactaní!’".

Uma espécie de Madre Teresa do mundo erudito francês, Simone Weil identificou-se de tal maneira com a dor do próximo, que desejava sua companhia. Denunciava que o cristianismo se tornara uma religião exclusivista e insistia que os cristãos precisavam repensar a sua catolicidade. Para ela, até os liberais pós-iluministas contribuíam com a verdade. Afirmava que eles precisavam ser ouvidos. Justificava o ateísmo de outros filósofos, como mera reação à religião organizada, responsável por opressão, orgulho e exploração. "O novo santo, preconizava ela, "necessita de uma santidade nova, fora dos paradigmas". "Ele precisa, de uma capacidade única: combinar cristianismo e estoicismo, o amor de Deus e o amor filial à cidade do mundo".

Simone Weil escreveu pouco. Um dos seus principais livros, "A Gravidade e a Graça", foi traduzido para o português (Martins Fontes). Acompanhemos alguns de seus pensamentos. Leio suas palavras com reverência, acreditando que, à semelhança de Hebreus 11, seu nome, faria parte de uma nova lista de heróis da fé.

Renúncia ao Tempo

"O passado e o futuro obstruem o efeito salutar da infelicidade fornecendo um campo ilimitado para elevações imaginárias. Por isso a renúncia ao passado e ao futuro é a primeira das renúncias".

"Quando somos decepcionados por um prazer que esperávamos e que chega, a causa da decepção é que esperávamos o futuro. E quando ele chega é o presente. Seria preciso que o futuro chegasse sem deixar de ser futuro. Absurdo que somente a eternidade cura".

O Amor

"O amor a Deus é puro quando a alegria e o sofrimento inspiram uma igual gratidão".

"O amor, em quem está feliz, é querer partilhar o sofrimento do amado infeliz. O amor, em quem está infeliz, é satisfazer-se com o simples conhecimento de que o amado desfruta a alegria, sem ter parte nesta alegria, nem sequer desejar te parte nela".

"É um erro desejar ser compreendido antes de ter elucidado a si mesmo aos próprios olhos. É buscar prazeres na amizade, e não merecidos. Você venderia sua alma pela amizade. Aprenda a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que oferecer a arte, ou a vida. É preciso recusá-la para ser digno de recebê-la: ela é da ordem da graça (‘Meu Deus, afastai-vos de mim...’). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Todo sonho de amizade merece ser quebrado. Não é por acaso que você nunca foi amado...Desejar escapar à solidão é uma covardia. A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela se exerce (é uma virtude)".

Beleza

"Em tudo o que suscita em nós o sentimento puro e autêntico do belo, há realmente presença de Deus. Há como que uma espécie de encarnação de Deus no mundo, cujo sinal é a beleza. O belo é prova experimental de que a encarnação é possível".

"Devemos ter cometido crimes que nos tornaram malditos, uma vez que perdemos toda a poesia do universo".

Aceitar o Vazio

"Acreditamos por tradição quanto aos deuses, e vemos por experiência quanto aos homens, que sempre, por uma necessidade de natureza, cada ser exerce todo o poder que dispõe (Tucídides) Como gás, a alma tende a ocupar a totalidade do espaço que lhe é concedido. Um gás que se retraísse e deixasse o vazio seria contrário à lei da entropia. Não acontece assim com o Deus dos cristãos. Trata-se de um Deus sobrenatural...Não exercer todo o poder de que se dispõe é suportar o vazio. Isso é contrário a todas as leis da natureza: somente a graça o pode. A graça preenche, mas ela só pode entrar onde há um vazio para recebê-la, e é ela que produz esse vazio".

"Aceitar um vazio em si mesmo é sobrenatural. Onde encontrar a energia para um ato sem contrapartida? A energia deve vir de outra parte. Porém, é preciso primeiro um rompimento, algo de desesperado, é preciso primeiro que um vazio se produza. Vazio: noite escura."

"É preciso uma representação do mundo em que haja vazio, a fim de que o mundo tenha necessidade de Deus. Isso supõe o mal."

Goethe afirmava: "Agir é fácil, pensar é difícil, adequar a ação ao pensamento é a coisa mais difícil". Simone Weil soube viver o mais difícil. Hoje, filhos da pós-modernidade superficial e mesquinha, precisamos de gente como essa francesa, quase desconhecida no Brasil. Precisamos ser resgatados de uma mediocridade acintosa, na qual os valores do reino se confundem com "glamour e grana". Simone Weil afirmou que "há apenas um erro: não ter a capacidade de se alimentar de luz. Pois, estando abolida essa capacidade, todos os erros são possíveis".

Evangélicos brasileiros, ouçamos a sua advertência. Soli Deo Gloria.


 

 



Autor: Ricardo Gondim Rodrigues
Fonte: PILB


 

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