Jovem Apfiano

Foi guiado pelo Espírito Santo à cidade de Cesaréia, onde lhe estava preparado a coroa de martírio por sua devoção. Maximino César, que depois subira ao governo, como para dar evidências do seu ódio inato a Deus e sua aversão à fé, armou-se para perseguir com maior violência que aqueles antes dele. Conseqüentemente, como não foi pouca a confusão surgida entre todos, alguns debandaram para cá e outros para lá, esforçando-se por todos os meios escapar do perigo; e como havia o maior tumulto em todo o império, que descrição seria suficiente para fazer um relato fiel daquele amor divino e daquela liberdade de confissão que distinguiam o mártir Apfiano, este abençoado e verdadeiramente cordeiro inocente? Tinha escassos vinte anos, quando exemplificou maravilhosamente devoção sólida ao único Deus, como um tipo de espetáculo a todos diante dos portões de Cesaréia.

E a princípio, com o propósito de continuar seus estudos da literatura grega, como era de muito rica, passou a maior parte do tempo em Berito. É maravilhoso contar como, em meio da tal cidade, apesar das tentações das paixões juvenis, ele foi superior a todos e não se deixou corromper em seus princípios moais pelo vigor do corpo ou por sua colocação com moços, mas abraçou uma vida modesta e sóbria, andando de maneira honesta e santa regulando suas conversas como alguém que tinha adotado a fé cristã. Seria necessário mencionar seu país e assim celebrar o lugar que deu luz a tão nobre lutador pela causa da religião - o que faremos de bom grado. Lagas, cidade da Lícia, de não pequena importância e que pode ser conhecida de alguns de meus leitores, era o lugar de onde este jovem teve sua origem.

Contudo, depois de voltar dos seus estudos em Berito, embora seu pai continuasse na primeira posição social do país, estando impossibilitado de suportar morar com o pai e o resto da família, visto que eles não aprovavam a vida segundo as leis da fé, como que impelido pelo Espírito divino e por um tipo de filosofia natural, ou antes, diria, inspirada e genuína, julgando melhor que as coisas que se consideram glória nesta vida e menosprezando os moderados prazeres do corpo, fugiu secretamente dos amigos. E sem qualquer preocupação por suas despesas diárias, em sua confiança e fé em Deus, foi conduzido como que guiado pelo Espírito Santo à cidade de Cesaréia, onde lhe estava preparado a coroa de martírio por sua devoção. Tendo se juntado conosco lá, estudando as Escrituras Sagradas tanto quanto se poderia em curto espaço de tempo e se preparado de muita boa vontade por exercícios e disciplina adequados, teve um fim muito ilustre como não poderia ser testemunhado sem nos assombrarmos.

Quem ouviria sem ficar maravilhado com a liberdade com que falou, veria a sua firmeza, ou antes, a coragem e a energia deste jovem que deu evidência de zelo pela fé e um espírito mais que humano? Pois quando, no terceiro ano da perseguição, uma segunda instigação foi levantada contra nós por Maximino e os editos do tirano para esta finalidade foram primeiramente publicados, anunciando que todas as pessoas de todos os lugares deveriam oferecer sacrifícios publicamente e que os governantes das cidades deveriam cuidar disto com todo o cuidado e diligência, quando também os arautos estavam proclamando em toda a Cesaréia que, sob ordem do governador, homens, mulheres e crianças deveriam ir aos templos dos ídolos; e, além disso, os tribunos militares estavam chamando por nome, um por um, de uma lista, e os pagãos estavam se aglomerando numa imensa multidão proveniente de tosos os bairros, este jovem destemidamente e sem revelar seu propósito a ninguém, saindo às ocultas de nós que morávamos na mesma casa e sem ser percebido pela tropa militar que cercava o governador, aproximou-se de Urbano que estava fazendo libações. Agarrou com intrepidez a mão direita do governador, interrompendo-o subitamente no ato de sacrificar.

Então ele o aconselhou e o exortou em tom solene e sério a abandonar seu erro, dizendo que não era certo que desertássemos o único e verdadeiro Deus para sacrificarmos a ídolos e demônios. O jovem fez tal ação, como é muito provável, sob o impulso de um poder divino, o qual por esta proeza deu um tipo de testemunho audível de que os cristãos estavam muito longe de abandonar a religião que tinham adotado. Eram não apenas superiores a todos os perigos ameaçadores e castigos conseqüentes estes, mas cada vez mais agiam com liberdade ainda maior e faziam declarações nobres e destemidas, e sendo possível que seus perseguidores fossem libertos de sua ignorância, até os exortou a reconhecer somente o único e verdadeiro Deus. Logo em seguida, ele de quem estamos falando agora, como poderia se esperar no caso de ato tão ousado, foi imediatamente agarrado e arrancado com violência pelos soldados como bestas vorazes, e , depois de sofrer heroicamente inumeráveis varadas em todo o corpo, foi lançado na prisão até ordens posteriores. Ali sendo espichado no ecúleo pelo torturador por ambos os pés uma noite e um dia, foi no dia seguinte levado ao juiz e, quando forçado a oferecer sacrifício, demonstrou uma fortaleza invencível suportando dores e torturas repugnantes. Suas ilhargas foram não só uma ou duas, mais muitas vezes sulcadas e raspados até os ossos e intestinos, sendo ao mesmo tempo surrado com tantos murros no rosto e pescoço que, por causa de sua face contundida e inchada, já não era mais reconhecível por aqueles que o tinham conhecido bem.

Mas, como não se rendeu nem mesmo a isto, envolveram-lhe os pés com linho macerado em óleo e, sob ordem do governador, os torturadores colocaram fogo. Tenho para mim que o sofrimento que este abençoado jovem suportou ultrapassam toda a capacidade de descrição. O fogo, depois de consumir a carne, penetrou nos ossos, de forma que os humores do corpo, liquefeitos como cera, caíam em gotas;mas, visto que não se entregava nem sequer a isto, seus antagonistas vendo-se derrotados e agora apenas perplexos para dar razão a essa mais que perseverança humana, foi ele novamente lançado na prisão. Por fim, chamaram-no no terceiro dia a comparecer outra vez na presença do juiz e, ainda declarando seu firme propósito na profissão de Cristo, já meio morto, foi lançado ao mar e se afogou. O que aconteceu logo depois dificilmente seria creditado por alguém que não tivesse visto com os próprios olhos. Mas apesar disto, não podemos deixar de registrar os acontecimentos que, como podemos dizer, todos os habitantes de Cesaréia foram testemunhas do fato. Pessoas de todas as faixas etárias estavam presentes a esta cena maravilhosa. Assim que este jovem realmente abençoado e santo foi lançado às partes mais profundas do mar, de repente, um som ribombante e incomumente estrondoso permeou não apenas o mar, mas todos os céus circunvizinhos. De forma que a terra a cidade inteira foi abalada. E ao mesmo tempo com este tremor maravilhoso e súbito, o corpo do mártir divino foi lançado pelo mar diante dos portões da cidade, como se fosse incapaz de suporta-lo. E assim foi o martírio do excelente Apfiano, no dia dois do mês Xântico, ou no estilo romano, no dia quatro das nonas de abril, no dia da preparação ou sexta-feira.

 

Autor: Eusébio de Cesaréia

Fonte: Livro História Eclesiástica

 

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