Estátua de sal

 

Era já tarde. A brisa soprava levemente movimentando as folhas das frondosas árvores que rodeavam aquele lugar.

Era já tarde. Fechavam os portões da antiga cidade de Sodoma.

Era já tarde. Pais retornavam de suas ocupações, de seus labores para o lar ao encontro de filhos e esposa.

Sim! Era já tarde e todos procuravam descanso no aconchego da casa, diante de um dia inquieto que tiveram.

Era já tarde, e até o pardal e a andorinha já se achegavam a seus ninhos construídos por entre as coberturas das casas de Sodoma.

Era já tarde. Diante de tanta inquietude da população achava-se um homem de nome Ló. Calmo, sereno, em meio à movimentação da turba volumosa.

Era já tarde. Frente àquele quadro de entra e sai de Sodoma, dois estranhos ali chegaram.

Era já tarde. Ló oferecendo cômodo aos dois, hospedou anjos.

Todos daquele local, naquela mesma tarde, tinham algo para contar aos seus entes. Porém, dois viajantes traziam, em mãos, uma mensagem diferente.

-“Ló, escapa por sua vida! Deus ama você e não quer ver sua alma ferida. A cidade que agora contempla pelo amanhecer não mais existirá. Tudo, então, tornar-se-á cinzas. Deixa tudo, suba a campinha e não olhe para trás”!

Sim, como um instinto da natureza o véu de trevas da noite dominou Sodoma. O pecado com seus elos furtivos aprisionou seus habitantes. Os vícios e imoralidades eram hábitos das noites extravagantes. Gritos e euforias foram ouvidos mais uma vez, das tantas que afligiam a alma do justo Ló.

O pecado silencia a consciência,
Aprisiona a alma,
Sufoca o espírito, reduz a vida.
Não se ouve grito de clemência;
É a paz serena da alma que se esvai,
E no silêncio de uma madrugada de juízo,
Tudo sobre cinzas recai.

Ló, obediente à voz angelical,
Foi poupado e sua vida guardada.
Pelo amanhecer, olhando desde os montes,
Contemplou Sodoma pelo fogo, tragada.
Mas algo desconhecido aconteceu,
Eram quatro quando deixaram a cidade,
Ele isto não previu,
No entanto, era realidade.

Sua companheira, sua companheira amada que conjuntamente tudo abandonou!

Uma das filhas assim se expressou: - Mas, pai! Ela não vinha conosco, Será que para trás ela olhou?

Ló, diante daquele impulso de sentimentos provocado pelas palavras da filha, levantou seus olhos para a extensa campinha. De seus olhos brotaram vivas gotas de lágrimas. E chorou. Lembrou de quando, pela última vez, fitou o semblante da esposa ao iniciar a caminhada de escape.

Sim! Era uma verdade tão real quanto a luz radiante do sol no deserto: dura de suportar. Tão pesada quanto a massa tonelável da rocha. Tão dolorida que parecia arrancar, de dentro para fora, seu próprio coração.

Contemplando as campinhas, Ló avistou o que restara de Sodoma: cinzas e fumaça. Olhando mais detidamente, notou uma coluna de sal.

De momento para momento,
Não fácil era acreditar,
Sua amada companheira
Em estátua de sal se foi transformar.

Ah! A solidão como espectro envolveu seu coração.

Poderia pensar Ló consigo: - Se tão somente eu a tivesse auxiliado! Se a trouxesse pela mão! Se talvez pudesse ter-me esforçado um pouco mais para não deixá-la para trás!

Seria a causa de olhar para trás a sociedade materialista de quando lá estávamos, ou a minha não constância em verificar as mínimas coisas que sorrateiramente entram e pensamos que, humanamente falando, Deus não as tem por significantes ou não leva em conta.

Muitas vezes, isto acontece,
Muita concessão, o coração padece.

Mas, já era tarde, e agora, tarde demais.

A mulher de Ló,
Ficou no meio do caminho,
Não concluiu a jornada.
Por ser portadora de um coração vaidoso,
Sua vida não foi poupada.

Sim, meus amigos! Para avançar no livramento, os passos não podem ser vagarosos e indefinidos, se já estamos trilhando o caminho da verdade. Mas, sim! Correr é a ordem bíblica. Correr sem parar. Correr não olhando para os lados, nem tampouco para trás.

O apóstolo Paulo corria para alcançar uma coroa incorruptível, combatia o verdadeiro combate e possuía a certeza de que Deus era poderoso para guardar seu depósito até o fim.

Correr para remir o tempo, pois não é o tempo que passa, e sim, somos nós que passamos. O tempo permanece.

Muitos correm para o desenfreamento da perversão de costumes, da devassidão. Nós corremos para o desenvolvimento da compreensão e conhecimento de Deus, para a renovação da mente em redenção.

Esta carreira é definida e objetiva.

Definida, porque devemos estar com os olhos fitos no Autor e aperfeiçoador da fé: Jesus.
Objetiva, porque determinamos como alvo do fim dessa carreira uma Cidade, não como Zoar que hospedou Ló e suas filhas, mas, uma Cidade em ouro e cristal: Jerusalém Celestial, morada dos fiéis.

Os indícios de um eminente acontecimento estão presentes. Já se fazem sentir partículas de cinzas de uma grande destruição.

Corra do pecado, meu amigo!
Escape da corrupção, meu jovem!
Não se envolva nos embalos do mundo,
Nesse grande vendaval,
Para que também você não se torne,
Numa ESTÁTUA DE SAL.

 

Amauri Galvão

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