“A fé”, disseram os primeiros luteranos, “é algo perturbador”. A. W. Tozer

06-10-2015 14:43
A Martinho Lutero dá-se o crédito, sob a orientação de Deus, de ter redescoberto a doutrina bíblica da justificação pela fé. A ênfase de Lutero na fé como a única forma de alcançar a paz do coração e a libertação do pecado deu uma nova injeção de vida à Igreja que estava em decadência e promoveu a Reforma.
 
Grande parte disso não passa de história. Não se trata de uma questão de opinião, mas de um simples fato. Qualquer pessoa pode verificá-lo.
 
No entanto, algo aconteceu à doutrina de justificação pela fé como ensinada por Lutero. O que aconteceu não é tão fácil de ser descoberto. Não é questão de um simples fato, uma simples afirmativa ou negativa, uma explicação óbvia. É mais difícil de compreender do que isto, e muito mais difícil de se chegar a uma conclusão; maso que aconteceu é tão sério e tão importante que mudou ou está em via de mudar toda a perspectiva evangélica.
 
Se persistir, poderá muito bem virar o Cristianismo às avessas e substituir por completo a fé dos nossos pais. E a revolução espiritual como um todo parecerá tão gradativa e tão inocente que dificilmente será percebida.
 
Qualquer pessoa que combatê-la será acusada de lutar com lanças contra os moinhos de vento, como Dom Quixote. A fé que Paulo e Lutero tinham foi algo revolucionário. Causou uma reviravolta na vida do indivíduo e o transformou em uma pessoa completamente diferente.
 
Agarrou-se à vida e a trouxe para a obediência a Cristo. Pegou sua cruz e veio após Jesus sem intenção de recuar. Despediu-se de seus velhos amigos tão certo quanto Elias quando entrou no carro de fogo e partiu em um redemoinho. Havia uma finalidade nisso.
 
Trancou-se no coração de um homem como uma armadilha; aprisionou-o e, daquele momento em diante, tornou-o um servo feliz e amoroso de seu Senhor. Converteu a terra em um deserto e desvelou o céu diante da alma fiel. Tornou a alinhar todas as ações da vida e as ajustou de acordo com a vontade de Deus.
 
Colocou aquele que a possuía em um pináculo de verdade, de cuja posição ele observava tudo que aparecia em seu campo de experiência. Fez do homem um ser pequeno, de Deus, um ser grande, e de Cristo, um ser inexplicavelmente precioso. Todas estas coisas e outras aconteceram a um homem quando este recebeu a fé que justifica.
 
Veio a revolução, calmamente, e, sem dúvida, a palavra “fé” foi compreendida por outra perspectiva. Aos poucos, todo o significado da palavra mudou do que tinha sido para o que é neste momento. E a mudança foi tão insidiosa que dificilmente uma voz se levantou para advertir contra ela. No entanto, as trágicas consequências estão à nossa volta.
 
A fé agora não significa outra coisa senão uma passiva submissão moral à Palavra de Deus e à cruz de Jesus. Para exercitá-la, temos apenas de nos colocar de joelhos e concordar balançando a cabeça com os ensinamentos de cunho pessoal de um obreiro sobre a salvação da nossa alma.
 
O efeito geral é bem parecido com aquele que as pessoas sentem após se consultarem com um bom e sábio médico. Elas saem de tal consulta se sentindo extremamente bem e, ao mesmo tempo, com um sorriso um pouco tímido para pensar em quantos temores tinham com relação à sua saúde quando, na verdade, não havia nada errado com elas.
 
Precisavam apenas de um descanso. Uma fé como esta não perturba as pessoas. Ela as conforta. Não desloca a junta de sua coxa para que fiquem mancas; ao contrário, ela as ensina a praticar exercícios naturais e melhora sua postura. A face de seu ego é lavada, e sua autoconfiança, não se permite abater.
 
Tudo isso elas conseguem, mas não recebem um novo nome como Jacó nem caminham mancando para a luz eterna. “Nasceu-lhe o sol, quando ele atravessava Peniel” (Gn 32.31).
 
Este era Jacó – ou melhor, Israel, pois o sol, sentindo-se envergonhado, não brilhou muito sobre ele. Contudo, gostava de descansar sobre a cabeça do homem a quem Deus transformara. Esta geração de cristãos precisa ouvir novamente a doutrina da virtude perturbadora da fé.
 
É preciso dizer às pessoas que a religião cristã não é algo com que se pode brincar. A fé em Cristo prevalecerá ou não haverá nada para fazer com o homem. Ela não se entregará à experimentação. Seu poder não pode alcançar homem algum que esteja planejando um caminho alternativo no caso de as coisas ficarem difíceis para ele.
 
O único homem que pode ter certeza de que tem a verdadeira fé bíblica é aquele que se coloca em uma posição em que não há como recuar. Sua fé resultou em um compromisso eterno e irrevogável e, por mais forte que seja a tentação, ele sempre responderá: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68).
 
Fonte: Extraído do clássico Verdadeiras Profecias. Para uma alma em busca de Deus - Série Riquezas de Cristo – A. W. Tozer - editora dos clássicos
 
 
Voltar

Procurar no site

Foto utilizada com a permissão da Creative Commons enki22, broo_am, broo_am  © 2009 Amauri Galvão - Todos os direitos reservados.