A saga da porcada

O que se configura como mais importante: pessoas ou coisas?

Esta é uma pergunta que incomoda: O que é mais importante para mim? Bem..., a resposta, você diria, encontra-se exatamente no momento pelo qual estarei passando; a situação na qual me envolverei é que vai definir o que será mais importante para o momento, para a circunstância, e, por extensão, definirá o que será prioridade para mim.

Esse é um velho recente (perdoem-me o paradoxo) problema. Estamos pautando nossas ações, não fundamentadas em princípios, e sim, nos interesses, no lucro que vamos ter, nas circunstâncias favoráveis ou contrárias. Nosso padrão de avaliação vê apenas coisas, deixando de notar as pessoas, os seres humanos que originam, administram e não poucas vezes sofrem com tais coisas.

A proposta de Nosso Senhor Jesus Cristo é um tanto quanto bem diferente do que acima está descrito.

A história narrada no evangelho de Marcos capítulo 05, versos 01 ao 13, conta-nos o dilema de alguém que morava na província dos gadarenos. Tal homem era possuído por seis mil demônios. A cidade de Gadara convivia dia e noite com essa figura assustadora. O evangelista Marcos narra o acontecido declarando que o endemoninhado morava nos sepulcros, andava sempre gritando e urrando nas colinas e carvernas, cortando-se e ferindo-se, completamente nu. Preso muitas vezes a grilhões e cadeias, esse homem conseguia se soltar fazendo em pedaços e transformando em migalhas ferros e correntes que o aprisionavam, e, menciona o texto, “...ninguém o podia amansar...”. Os moradores daquela cercania conviviam amedrontados e ao mesmo tempo ameaçados por aquela “criatura” angustiada. Ao longo das bordas do mar da Galiléia, perto de Gádara, ainda hoje se podem ver os restos de antigos sepulcros, cavados nas rochas, voltados para o mar. Nos dias do nosso Salvador aqui na terra eram esses lugares o ponto de reunião de homens miseráveis, atormentados por doenças, os párias da sociedade.

Um dia, ali chegou Jesus e os discípulos, e, como era de se esperar, o homem possesso foi completamente libertado. Mas, a situação curiosa é o fato que a libertação do homem custou à sociedade gadarena o valor referente ao montante de dois mil porcos, pois, assim que os seis mil demônios deixaram o pobre homem, “... entraram nos porcos; e a manada se precipitou por um despenhadeiro no mar, e afogaram-se no mar.”

Esse acontecimento movimentou a sociedade gadarena e a cidade com seus moradores agitados “... começaram a rogar a Jesus que saísse dos seus termos”.

O que era importante para os moradores de Gadara? A libertação do ser humano ou um excelente negócio com a “porcada toda?”.

Examinando o texto, nota-se que optaram pela coisa – os porcos - e não pelo ser humano; pois, se adaptaram muito bem convivendo com um louco, desvairado, endemoninhado e em total desgraça, todo os dias, mas, não conseguiram assimilar o prejuízo que adveio com a perda de dois mil porcos. Pensavam eles que, estando Jesus em sua província, este poderia trazer outros prejuízos no processo de libertação de mais alguns necessitados e desesperados.

Estivesse você presente naquele momento bíblico e, pouco antes da libertação do pobre homem, formulasse para Jesus Cristo a pergunta que é tema de nossa reflexão, provavelmente Ele mandaria você focar seriamente o que ali estava por acontecer. Olharia para você e perguntaria: “Libertamos o homem ou deixamos a manada de dois mil porcos pastando tranqüilamente na colina?” Sem mais delonga Jesus responderia a sua própria pergunta: “Primeiro o ser humano, coisas depois”.

Os loucos e necessitados de nossa sociedade podem ser libertados, contanto que não levemos em conta algum pretenso “prejuízo” que isto nos cause nas coisas que temos. O valor do ser humano ultrapassa qualquer "coisa", é caríssimo, pois custou o corpo, o sangue e a vida do Criador da Humanidade, Deus Glorioso, Redentor. Glória, pois ao Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amauri Galvão www.palavraquefunciona.com

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